My Au Pair Journey

Ga Lynxi in New Jersey

Praga

Sim, praga. Eu estou mais do que convencida disso. Aliás, acho incrivelmente injusto que qualquer criança tenha um nome como esse, de desenho, que leva a imaginar coisas fantásticas. E cá estou eu, Alice. Mas esse país não é tão cheio de maravilhas. Ah, não me entenda mal, tem muitas coisas boas, muitas mesmo. Às vezes, eu encolho até ficar bem bem pequenininha. Esse sentimento, na verdade, é bastante ruim. Sufocante, desesperador. Porém, às vezes vejo coisas fantásticas, que nunca tinha visto antes, como pessoas vestidas esquisitas, de camiseta no frio, veja só! Talvez… talvez eu tenha pulado o país das maravilhas. Caído direto no segundo volume da minha vida, e esteja, na verdade, no país dos espelhos. Sim… talvez seja isso mesmo. Aqui estou, tendo a chance de me conhecer, de descobrir coisas sobre mim mesma que nunca tinha notado – ou nunca quis notar. Esse, às vezes, também pode ser um sentimento sufocante.

Só que não acho legal o fato de eu ter perdido as maravilhas! Afinal, era isso que mais esperava… Acontece que, em seu lugar, encontrei espelhos… Ou talvez, eles tenham vindo juntos, como num volume compilado. Hm, não gosto disso, prefeira só as maravilhas. Se você nunca teve a oportunidade de, a cada dia, repensar quem você é, o que está fazendo, quais os seus valores, quais suas qualidades, quais seus defeitos, eu diria que você tem muita sorte e muito poucos espelhos. Ou ao contrário. Veja bem, não gosto de defeitos. Sim, eu sei que todos os temos, mas gosto de pensar que os meus são pequenos, contornáveis. Aqui, me vejo evitando os espelhos físicos, esgotada que estou dos espelhos mentais que enfrento todo dia. Mas, talvez, isso não seja só eu, não seja só aqui. Vai ver, enlouqueci. Vai ver estou maluca… mas você também é maluco! Sim, sim, mesmo sem ser chapeleiro!

Família. Amizade. Amor. Saudade. Vontade. Inteligência. Competência. Preocupação. São todas palavras que, aqui, estou redescobrindo. Talvez, tudo dependa de como você vê as coisas, e eu tenha caído no reino da sabedoria. Sim, provavelmente foi isso que aconteceu. Afinal, estou quase literalmente devorando letras por aqui. Mas… ainda que não tenha encontrado nenhum mausquito, aqui as palavras tomam mesmo novo sentido.

A dinâmica familiar que achei que tivesse toma novas, e assustadoras, formas. A amizade se tranforma, e percebo, de longe mas ao mesmo tempo perto, como pessoas tão próximas podem ser tão diferentes. Me pergunto se, não fosse a cronologia das coisas, algumas amizades nunca seriam tão fortes. E outras, surpreendentemente, se fortalecem quando achamos que iriam quebrar. Percebo como as pessoas sentem as coisas de formas diferentes. Amor… amor?! Mas que palavra difícil, percebo cada vez mais… aliás, é quase uma palavra como “coisa”, que diz muitas “coisas”, mas, se você olhar para ela sem algum ponto de referência específico, não siginifica nada… Nada? Como pode uma palavra forte como amor significar nada para alguém? Não sei, é só uma hipótese. Afinal, aqui, estou descobrindo ainda mais novas concepções possíveis de amor. Algumas mais complicadas do que imaginei. Outras, incrivelmente mais fáceis.

Saudade. Essa palavra tão tupiniquim…. Ah, difícil explicar! Saudade e falta não são mais a mesma coisa na minha cabeça. Saudade é uma coisa que meu corpo sente naturalmente, 24 horas por dia, às vezes incoscientemente, e às vezes eu preciso me esforçar para parar de pensar a respeito, ou fica muito difícil fazer outras coisas. Mais ou menos como a respiração. Sim, sim, se eu tivesse que descrever onde a saudade fica e como funciona, diria que é como a respiração, tem uma parte específica do corpo responsável por cada uma – coração e pulmão – mas, na verdade, elas estão no corpo todo! Cada partezinha de mim precisa de ar, e cada parte que precisa de ar sente saudade… A parte boa? Consigo conviver com as duas. Às vezes, é difícil, mas é semrpe factível.

Vontade. Inteligência. Competência. Preocupação… Ah, são tantas as palavras! São tantas as mudanças… Será que algum dia vou conseguir sentar e montar meu próprio dicionário completo, imutável? Será que alguém consegue? Será que algo é verdadeiramente imutável?

Esse país maravilhoso dos espelhos onde tudo depende de como você vê as coisas… Ah, é aqui que estou. Mas minha mente, ah, essa está longe, longe. Onde? Se você encontrá-la, me avisa. No momento, aparentemente ela está fugindo das suas responsabilidades, atribulada demais para conseguir se aquietar. Talvez, ao invés de fugindo, ela esteja buscando respostas. Espero, sinceramente, que as encontre e retorne. O quanto antes.

 

Outubro – 2011

Gabriela S. F.

Referências:

This entry was posted on quinta-feira, outubro 6th, 2011 at 00:06 and is filed under Sem categoria. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

3 Responses to “Praga”

  1. nilda
    15:37 on outubro 6th, 2011

    não sei se consola vc, mas ainda não encontrei respostas para a maioria das minhas dúvidas. e olha que já vivi “quase” o dobro que vc…por isso, relaxe. absorva cada experiência nova, cada lugar novo, cada comentário esdrúxulo que tiver que engolir. eu faço isso na esperança de um dia poder compilar tudo que vivi e, aí sim, entender a minha vida. keep cool. beijo no coração.

  2. Deisi
    13:52 on outubro 11th, 2011

    Acho que tenho que concordar com a sua mãe… de que a vida é essa busca por respostas, e eu, com meus quase 24 anos, ainda não as encontrei. Mas acho que a parte mais divertida de tudo, é essa busca. Muita coisa te decepciona, muita coisa te irrita por ser espelho, e não a maravilha. Mas há coisas maravilhosas também, que podem não parecer maravilhas, mas, um dia tocarão seu coração como você nunca imaginou.
    Quem sou eu pra te dizer essas coisas? Estou muito mais longe do que gostaria, e talvez eu seja uma dessas que a cronologia favoreceu. Mas isso não muda my feelings towards you.

    Cuide-se sweetie, e lembre-se de usar o filtro.

  3. Tha
    23:58 on outubro 17th, 2011

    Ah… você acaba de me lembrar como eu amo esses dois livros e simplesmente PRECISO deles na minha coleção. São geniais, daqueles livros que me deixam um pouco tonta e fora do ar. Se alguém aí quiser me fazer feliz, está aí uma boa chance ^^ Eles falam da vida, das diferentes verdades da vida, se é que existe verdade. Sua mãe e a Deisi falaram em busca, para mim a vida é mais do que isso, é uma nova descoberta a cada dia. Descoberta de uma nova flor, de um novo sentimento, de um novo eu. É se redescobrir, é sentir saudades para lembrar como você ama aquela pessoa, é chorar de tristeza, de alegria e chorar por coisa nenhuma, pela vida que passa e a gente não vê. Ou finge que não vê, para curtir um pouco mais. De qualquer forma, eu sou suspeita… meus amigos me chamam de chapeleiro maluco, ou era lebre de março? Já não sei… às vezes as respostas estão logo à nossa frente, basta sabermos a pergunta certa. Se um dia você achar essa pergunta, por favor, nos conte!
    Take care, my dear.

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